O Tocantins parece decidido a provar, mais uma vez, que a lógica, a prudência e o bom senso são artigos em extinção na política local. A Assembleia Legislativa aprovou, com a serenidade de quem vota o nome de uma praça, a autorização para que o governo estadual contraia um empréstimo de R$ 1,7 bilhão. Sim, bilhões, com “b” de buraco, de boleto, de bomba fiscal deixada para o próximo.
A justificativa oficial é um clássico da retórica política brasileira: “reestruturar a dívida, reduzir encargos, promover investimentos”. Traduzindo do governês para o português: “precisamos de dinheiro agora, e quem vier depois que se vire para pagar a conta”. É o futuro hipotecado em nome da conveniência presente.
O problema não é apenas o valor, é o timing, como dizem os marqueteiros. O empréstimo é aprovado às vésperas de uma campanha eleitoral. Coincidência, dirão os otimistas. “Planejamento de gestão”, dirão os bajuladores. Mas para quem tem memória, fica o eco de uma velha esperteza tropical: injetar recursos públicos em obras, contratos e publicidade em ano eleitoral costuma ter um nome feio, uso político do dinheiro público.
A irresponsabilidade travestida de eficiência
O discurso da “gestão moderna” é o novo manto da irresponsabilidade.
Reorganizar sete empréstimos em um só soa bonito, parece técnico, racional, quase europeu. Só há um detalhe: o montante global da dívida não diminui. O que muda é o prazo, o juro e, claro, a conveniência política. É como trocar o limite do cartão estourado por um empréstimo consignado e se sentir economista do FMI.
A Assembleia, por sua vez, demonstra aquela conhecida “eficiência parlamentar” que brilha quando se trata de agradar o governo da vez. Debate público? Estudo de impacto fiscal? Consulta à sociedade? Bobagem. O que importa é dizer “sim” e tirar a foto da aprovação.
E, claro, tudo isso com o Estado nas mãos de um governador interino, que, se o destino for coerente, entregará o governo a outro gestor com um presente embrulhado em laço de dívida. Um gesto de “carinho” orçamentário.
O cheiro de campanha no ar
Seria leviano afirmar que o empréstimo será usado para irrigar campanhas eleitorais.
Mas seria igualmente ingênuo fingir que ninguém pensou nisso.
Em política, quando o timing é tão conveniente, o cheiro denuncia antes da fumaça.
É dinheiro demais, aprovado rápido demais, em época sensível demais.
E, para completar o enredo, há Laurez Moreira, político experiente, ex-prefeito, figura central no tabuleiro eleitoral que se avizinha. A coincidência beira o milagre. O empréstimo bilionário surge justo quando se monta a estrutura de campanha no Estado, e ninguém deve achar estranho? Por favor.
A conta vem e com juros políticos
A ironia é que, quando o próximo governo assumir, virá o chororô habitual: “herdamos um Estado endividado”, “precisamos fazer ajustes”, “a culpa é da gestão anterior”. E todos fingirão surpresa, como se o rombo tivesse surgido de um buraco no asfalto recém-pavimentado com dinheiro do empréstimo.
A irresponsabilidade política no Tocantins é cíclica: governa-se para o próximo ciclo eleitoral, não para a próxima geração. Enquanto isso, o cidadão, aquele que paga impostos e pega fila em hospital, é o único que não tem o privilégio de adiar o vencimento das suas contas.
O veredito
O empréstimo de R$ 1,7 bilhão é um ato de imprudência fiscal, oportunismo político e desprezo pela transparência.
Foi aprovado sem debate robusto, num contexto em que cada centavo público deveria ser tratado com desconfiança redobrada.
O Tocantins não precisava de mais um bilhão de dívidas, precisava de governantes que entendessem o significado da palavra responsabilidade.
Mas é pedir muito. Aqui, a lógica é outra: o poder é passageiro, mas o débito é eterno.

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