Me perdoe, Francisco, por chamá-lo assim, sem títulos ou formalidades. É que, no fundo, sinto que o senhor pertence a nós. Não aos tronos dourados, nem às vestes bordadas, mas a nós — os que quase desistiram de acreditar em qualquer forma de fé.
Sou ateu. E mesmo assim, escrevo essa carta com gratidão.
Gratidão a um papa que ousou ser humano. Que falou de amor quando muitos falavam em condenação. Que estendeu a mão aos que sempre estiveram do lado de fora do templo. Aos que foram expulsos, silenciados, corrigidos à força.
Eu sou um desses. Um dos que ouviram, desde cedo, que amar como amo é pecado. Que Deus não me aceita. Que minha existência ofende. Cresci com medo de mim. Cresci tentando caber em um molde que só feriu.
Mas então o senhor apareceu. E mesmo sem me converter, me alcançou.
O senhor falou de justiça. Enfrentou a podridão da própria casa, a ferida da pedofilia que tantos preferiram esconder. Disse que não era cristão quem odiava. E só isso, Francisco, foi como respirar depois de muito tempo debaixo d’água.
O senhor não me salvou, mas me fez sentir visto.
Obrigado, Francisco. Pelo amor desobediente. Pela coragem suave. Por ter sido mais evangelho do que dogma.
Se existe céu, que ele seja sua casa agora.

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