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Sexta-feira, 17 de Abril de 2026
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Um conto de ficção, ou não.

Stoff Vieira Costa
Por Stoff Vieira Costa
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Dizem pelas bandas de Capim Mole, interior esquecido entre montanhas preguiçosas e promessas eleitoreiras, que a cidade ganhou notoriedade não por causa da produção de leite ou da festa do milho, mas porque ali se escondeu — ou melhor, se escancarou — um segredo do tamanho do ego de um senador.

O Excelentíssimo Augusto Valadares, homem de fala mansa e gravata patriótica, era conhecido no Senado por três coisas: sua defesa fervorosa da “família tradicional”, sua habilidade de desviar verba com a graça de um mágico e sua sede insaciável por... encontros extraoficiais.

Dizia-se que, em Brasília, a cada emenda que aprovava, uma taça de espumante era estourada em alguma cobertura alugada por fora da cota parlamentar. Não para comemorar conquistas políticas, claro, mas para o início de orgias dignas de Roma Antiga — só que com menos filosofia e mais chantilly vencido.

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Mas voltemos a Capim Mole, onde a doce e ingênua Marlúcia, vendedora de cocada e devota de Santa Efigênia, cruzou o caminho do Excelentíssimo numa dessas “visitas de base”. Ela achou graça no jeito dele de se empolgar com a própria voz e na promessa de levar um "projeto de incentivo à cultura açucareira" para o povoado. Ele achou graça nela.

Dali ao motel mais próximo — um cubículo com papel de parede que descascava em forma de crucifixo — foram três cochichos e dois goles de cachaça.

A história se tornaria apenas mais uma nota de rodapé da hipocrisia institucional se não fosse por um detalhe inconveniente: Marlúcia engravidou.

O senador, ao saber da novidade, esbravejou mais do que em discurso de CPI. “Isso é um escândalo! Você quer acabar com minha carreira? O Brasil precisa de mim!” — como se o Brasil, coitado, não tivesse problemas o suficiente.

Foi então que, com voz untada de ameaça e perfume importado, ele propôs o "solucionamento do problema". Tradução: mandou uma assessora com um envelope cheio de dinheiro e um endereço de clínica em Goiânia, onde “essas coisas” se resolviam discretamente, como tudo que ele fazia com a consciência.

Marlúcia, armada apenas de dignidade e um celular com câmera, filmou tudo.

O vídeo vazou. Claro.

A assessora sumiu misteriosamente, o senador alegou “armação da oposição” e Marlúcia virou manchete — e mártir.

O Senado abriu sindicância, o partido soltou nota de repúdio em fonte Arial 12, e o povo de Capim Mole dividiu-se entre os que aplaudiam Marlúcia e os que ainda acreditavam que o senador era “um homem de Deus, vítima de uma tentação do demônio”.

Na próxima eleição, ele foi reeleito com 57% dos votos.

Marlúcia criou a criança sozinha e vendeu os direitos da história para uma plataforma de streaming. Comprou uma casa nova, abriu uma doceria e batizou o filho de “Democracia”.

E dizem que toda vez que alguém pergunta a profissão do pai, ela responde com um sorriso de canto:

— Servidor público... de si mesmo.

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