A política palmense não é para amadores. E o novo prefeito interino, Pastor Carlos Eduardo Velozo, parece ter esquecido disso logo nos seus primeiros dias de poder. Quem esperava serenidade e respeito à estrutura de uma gestão marcada pela confiança pessoal entre ele e Eduardo Siqueira Campos, hoje afastado por decisão do STF, assistiu a um espetáculo que muitos já consideram um “golpe branco”. A sequência de exonerações no alto escalão, a convocação de nomes de fora da cidade e a aproximação imediata com figuras do controverso grupo Monte Sião estão virando um prato cheio para o rótulo mais temido em qualquer esquina política: traidor.
Carlos Velozo chegou ao poder pelas mãos de Eduardo. Era seu vice, seu aliado espiritual e político. Velozo não teve um voto sequer diretamente do povo para ocupar o cargo que agora exerce. Foi alçado à cadeira do Paço como herdeiro temporário de um trono que deveria manter aquecido até o retorno do “rei”. Mas, no lugar da prudência e da cautela, optou por desfazer em poucos dias uma estrutura montada ao longo de anos — e, pior, sem qualquer transparência no discurso.
As primeiras decisões mostram mais do que um desejo de “governar com autonomia”: revelam uma sede por poder, típica de quem viu no caos uma escada. A demissão do secretário-chefe Carlos Júnior e do procurador-geral Renato Oliveira, ambos da cozinha pessoal de Eduardo, foi recebida como uma afronta direta, quase um ato de deslealdade. O detalhe que mais incomodou os bastidores? Eles foram substituídos por aliados do Agir, um partido até então irrelevante no xadrez municipal, e por nomes importados de Brasília — como se Palmas fosse um terreno baldio à espera de ocupação externa.
Velozo alega ter recebido “carta branca” de Eduardo para conduzir a gestão. Ora, se essa carta existe, ela não foi lida em público, nem muito menos assinada diante do povo. Sua defesa frágil soa mais como desculpa de quem tentou blindar-se contra o próprio erro. A reação imediata nas redes, nos grupos de WhatsApp e entre vereadores — inclusive aliados do prefeito afastado — foi de desconfiança. Alguns já articulam, nos bastidores, uma reação que pode culminar em seu afastamento. Sim, o vice pode ser afastado pelo mesmo sistema que o alçou, caso se torne um problema político maior que a crise original.
Pior que a traição política, no entanto, é a traição simbólica. Pastor Carlos se vendeu como homem de fé, de diálogo, de unidade. Mas, ao agir como se quisesse “refundar a prefeitura”, sem consulta, sem explicação, atropelando vínculos e alianças, ele arranha a própria imagem construída nos púlpitos e nas promessas. Se a base política de Eduardo desconfiar — e já desconfia — que ele está costurando um novo projeto pessoal, a sua queda será mais rápida que sua ascensão. Palmas não perdoa Judas.
Por ora, o prefeito interino segue com o discurso de continuidade e normalidade. Mas a cidade é feita de gente, e gente tem memória. A história recente da capital está cheia de vice-prefeitos que tentaram voar mais alto do que suas asas permitiam — e acabaram queimados na fogueira das vaidades políticas. Que Pastor Carlos reflita antes de pregar no deserto.

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