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Terça-feira, 28 de Abril de 2026
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Editorial | Ezequiel, Tetraplégico por Ação da Guarda Municipal, Morre em Araguaína

Guarda Municipal de Araguaína: A Farda que Mata e o Estado que Consente

Stoff Vieira Costa
Por Stoff Vieira Costa
Editorial | Ezequiel, Tetraplégico por Ação da Guarda Municipal, Morre em Araguaína
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Ezequiel Santos tinha 23 anos. Tinha uma família, sonhos, planos, e toda uma vida pela frente. Mas tudo isso foi esmagado em 12 de março de 2023, quando a viatura da Guarda Municipal de Araguaína o atropelou durante uma perseguição ilegal, contrariando diretamente decisões judiciais que já haviam determinado: guardas municipais não têm poder de polícia. O impacto não foi apenas físico — foi simbólico e estrutural. Reduziu Ezequiel à imobilidade, tirou-lhe a liberdade, os movimentos, a dignidade, e agora, também a vida.

Dois anos após o atropelamento criminoso, Ezequiel morreu no dia 23 de maio de 2025, vítima de complicações de uma virose. Mas não sejamos ingênuos: a virose só venceu porque antes o Estado já havia destruído suas defesas — físicas, emocionais, jurídicas e sociais.

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A máquina que mata e se cala

O que a Guarda Municipal fez naquele dia não foi um erro. Foi um ato deliberado de prepotência, ignorância da lei e despreparo. A perseguição foi ilegal, irresponsável e criminosa. E o silêncio das autoridades nos dias, semanas e meses seguintes foi ainda mais revoltante. Nem um pedido público de desculpas. Nenhuma assistência concreta. Nenhuma reparação emergencial. Nenhuma responsabilização.

A Prefeitura de Araguaína virou as costas. A Justiça andou a passos de tartaruga. E a família de Ezequiel foi abandonada em meio à dor, à burocracia e à impotência. A omissão institucional matou Ezequiel em parcelas: um pouco a cada dia de sofrimento físico, um pouco a cada noite sem resposta, um pouco a cada promessa vazia de apuração.

A farda virou escudo da impunidade

A Guarda Municipal em Araguaína se tornou sinônimo de autoritarismo, abuso e violência. Agentes despreparados e desorientados agem como milicianos autorizados, e não como profissionais a serviço da comunidade. O caso de Ezequiel não é isolado. É só o mais trágico e escancarado dos muitos sinais de que a corporação precisa ser urgentemente revista, desmontada e reconstruída sob novos parâmetros.

Enquanto isso, a Justiça parece mais empenhada em proteger a imagem da instituição do que em garantir a responsabilização de seus membros. A Prefeitura age como se o caso tivesse sido um detalhe, um tropeço, um episódio isolado. Mas não é. É um retrato fiel de um sistema apodrecido, onde a farda vale mais que a vida e a autoridade serve para pisotear direitos.

Uma morte anunciada

A morte de Ezequiel não foi um fim natural. Foi o último capítulo de uma execução lenta e institucional. A virose só foi fatal porque o atropelamento destruiu seu corpo. Porque o Estado destruiu suas chances. Porque o silêncio oficial corroeu qualquer perspectiva de justiça.

O que mais é necessário para que Araguaína reaja? Até quando a sociedade vai permitir que guardas sem preparo, protegidos por cargos e conivências políticas, continuem a agir como donos da lei e da vida dos cidadãos?

E agora?

Agora, é preciso que a indignação vire ação. A morte de Ezequiel deve ser um divisor de águas. É necessário que os agentes responsáveis sejam exonerados e punidos. Que a Guarda Municipal seja submetida a uma reestruturação completa, com delimitação clara de suas atribuições. Que a família receba a reparação moral e financeira que lhe foi negada em vida.

Porque se nada for feito, a morte de Ezequiel será apenas mais uma estatística, mais um número. E a Guarda Municipal de Araguaína seguirá atropelando vidas, direitos e esperanças, com a mesma impunidade e o mesmo silêncio.

Araguaína precisa decidir se continuará sendo a cidade onde a farda pesa mais que a justiça, ou se vai finalmente escutar o grito que o corpo imobilizado de Ezequiel tentou dar até seu último suspiro.

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