Inúmeras vezes me deparei com a dolorosa realidade de colegas de imprensa que, diante de casos de abuso e violência policial, parecem ter um estranho fetiche por fardas. Eles preferem se calar e fingir que nada está acontecendo, como se o abuso e a brutalidade fossem meras ilusões.
Eu comecei minha carreira no jornalismo tendo que ficar em frente ao quartel ou delegacia, madrugada adentro, ouvindo as ocorrências pelo rádio clandestino da polícia. E foram inúmeras as vezes em que eu e outros cinegrafistas obedecemos ordens para desligar as câmeras enquanto um policial agredia brutalmente um indivíduo, injustamente detido. A cor da pele, a vestimenta ou o perfil periférico eram motivos suficientes para serem agredidos, sob a justificativa de "buscar uma confissão" que sequer existia.
O que me entristece profundamente é ver colegas de imprensa se calarem diante dessas situações, seja por medo ou por um inexplicável fetiche em fardas. A imprensa tem o papel fundamental de não se calar diante da usurpação de direitos ou dos abusos cometidos por agentes públicos.
O jornalismo local se acovarda diante do sistema, idolatrando agressores de negros e periféricos e agindo como cúmplice do desrespeito aos direitos individuais. Ser imprensa vai além de segurar um microfone ou uma câmera, é utilizar a voz e a escrita para tentar transformar a sociedade em que vivemos. É preciso quebrar o fetiche pelas fardas e falar a verdade, mesmo que isso incomode aqueles que usam a violência para intimidar.

Comentários: