No último fim de semana, Araguaína foi palco de mais uma pérola do delírio coletivo masculino: a primeira edição do evento “Legendários Vale do Araguaia”, uma espécie de retiro espiritual com testosterona, voltado exclusivamente para homens que, aparentemente, precisam de quatro dias nas montanhas para se lembrar do que significa “ser homem”.
Cerca de 300 participantes se embrenharam nas regiões inóspitas do Araguaia em uma jornada que mesclou esforço físico, chororô emocional e doses generosas de pregação moralista. A proposta? Resgatar o tal “propósito original” do homem na família e na sociedade, como se estivéssemos em pleno século XIX. O coordenador geral do evento não economizou na frase de efeito: “Devolver aos homens seu propósito original e formar verdadeiros heróis em seus lares.” A julgar pelo tom, parece até que a masculinidade entrou em extinção e agora precisa ser reintroduzida na natureza.
Com discursos prontos e atividades que prometem fortalecer corpo, mente e espírito (leia-se: suar, chorar e ouvir sermões), o evento escancara uma verdade incômoda: o desespero de uma parte dos homens em se agarrarem a uma ideia ultrapassada de masculinidade como forma de validação. Afinal, para que enfrentar as complexidades da vida moderna, do afeto, da vulnerabilidade ou da igualdade de gênero, se você pode simplesmente subir uma montanha e se achar um herói?
O gran finale foi realizado na Igreja Nova Chance, com pompa, louvor e a glorificação de homens recém-saídos do mato como se tivessem vencido uma guerra. Emoção, celebração e um cheiro forte de regressão.
A próxima edição do evento já está marcada: de 21 a 24 de agosto. A julgar pela proposta, mais um espetáculo da fragilidade masculina disfarçada de superação virá por aí. Inscrições abrem em 7 de junho — corra antes que esgotem as vagas para essa excursão à bolha da masculinidade tóxica.

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