É incômodo escrever isso, mas necessário: a homofobia praticada por pessoas LGBTQIA+ é tão cruel quanto a que vem de fundamentalistas religiosos ou moralistas retrógrados. Talvez mais. Porque essa fere com consciência. Conhece a dor e, mesmo assim, escolhe infligir. O que vemos nas redes sociais hoje é o surgimento de uma geração que, sob a bandeira da liberdade de expressão, banaliza a luta que levou séculos para ganhar forma — e vidas para ser respeitada.
Pessoas LGBTQIA+ zombando de outras por serem “afeminadas demais”, “masculinas demais”, “não performarem direito”, “não se assumirem logo”. Como se o armário fosse apenas covardia e não, muitas vezes, uma trincheira contra a morte. Como se cada um não tivesse o seu tempo, seu contexto, sua dor. Julgar o outro por não sair do armário no tempo que você acha certo é repetir o papel do opressor. Só que agora, com glitter e microfone.
É como se parte da comunidade esquecesse que a homofobia não começou ontem — e tampouco terminou. Homossexuais foram queimados vivos durante a Inquisição. Em 1730, em Amsterdã, cerca de cem homens foram executados por suspeita de relações homossexuais. Durante o regime nazista, milhares de gays foram deportados para campos de concentração, identificados com um triângulo rosa e submetidos a experiências médicas, trabalhos forçados e assassinatos. No Brasil, temos a triste marca de ser um dos países que mais mata pessoas LGBTQIA+ no mundo, ano após ano.
E não estamos falando de passado distante. Em 1993, a travesti Dandara dos Santos foi brutalmente assassinada em Fortaleza. O vídeo da violência circulou como espetáculo. Em 2021, Roberta da Silva foi queimada viva dentro de um abrigo no Recife. E há os casos anônimos, os que não viralizam, os que somem nas estatísticas sem nome nem rosto.

Diante disso, como aceitar que pessoas da própria comunidade se tornem agentes do mesmo ódio que nos mata? Como respeitar quem zomba de quem ainda sofre? Como calar diante de quem reproduz o discurso de que “agora tudo é vitimismo”, “ser gay virou moda”, ou “só é respeitado quem se impõe”?
Respeito se constrói. E ele só é real quando nasce da empatia, da escuta e da consciência de que ninguém chega ao topo sozinho. Quem hoje desfila com orgulho pelas avenidas deve isso àqueles que enfrentaram a polícia nas ruas de Nova York em 1969, na Revolta de Stonewall, ou aos travestis que apanhavam nas esquinas do centro do Rio nos anos 80, quando sequer se dizia “LGBT”. Gente que morreu sem saber o que era “orgulho”, mas que lutou para que um dia a palavra existisse.
Se você, LGBTQIA+, hoje ofende, ridiculariza ou desrespeita outro LGBTQIA+, você não é corajoso — é ingrato. Não é livre — é cruel. E não é militante — é um traidor da própria história.
Se a fogueira foi apagada, não é para acendermos novas. É para acendermos consciência. Porque toda vez que um de nós aponta o dedo com ódio para o outro, o chicote apenas muda de mão — mas ainda sangra.

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